Histórias inspiradoras: a aventura da emigração


Ano 2013, a caminho da aldeia perto da Escócia

Hoje resolvi relatar a história de minha irmã, que se viu obrigada a emigrar há cerca de sete anos, durante a crise que se iníciou em 2008. A fase desafiante que estamos a viver, com muitas dúvidas sobre o futuro, medos e inseguranças levou-me a decidir sobre falar sobre este tema. O objetivo da partilha é demonstrar que com umas boas doses de empenho e engenho se consegue por vezes alterar situações que à primeira vista parecem inalteráveis. E também inspirar quem considera que se encontra num “beco sem saída”.

Desemprego versus idade

A minha irmã sempre foi muito estudiosa e por isso tem um doutoramento, um MBA, três mestrados, entre outros. Em 2011 viu-se desempregada já com uma idade considerada “avançada” no mundo empresarial português. Candidatou-se a muitos empregos no nosso país, sem sucesso. Até que o subsídio de desemprego terminou.

Planeamento

Foi nesta fase que pensou em emigrar. Pensou na Nova Zelândia, mas acabou por começar a candidatar-se a empregos em Inglaterra. Para isso apanhou um avião até aquele país, comprou um telemóvel e respetivo cartão no aeroporto e marcou encontro com um amigo português que já lá vivia para lhe pedir conselhos acerca da melhor forma de se candidatar a empregos, bem como autorização para colocar a morada dele no seu curriculum vitae. Nesse mesmo dia voltou para Portugal.

Execução do Plano

Após esta ideia engenhosa, começou a enviar candidaturas com o número móvel que tinha adquirido em Inglaterra e a morada “emprestada” do amigo. Em Portugal atendia o seu telemóvel inglês, marcava a entrevista e de seguida apanhava um avião. Até conseguir o seu primeiro emprego candidatou-se a quatro, portanto fez o número correspondente de viagens. Foi selecionada para trabalhar numa subsidiária de uma empresa multinacional, que ficava numa pequena aldeia perto da Escócia. Tratava-se de um local muito bonito e muito frio. Ainda em Portugal, alugou um pequeno aparthotel para iniciar a sua nova vida.


O quarto do aparthotel onde a minha irmã se instalou

A mudança para Inglaterra

A mudança não foi fácil. Teve que deixar a família em Portugal para ir viver sozinha num país onde nunca tinha estado. Fui com ela até Inglaterra para a ajudar a carregar todos os pertences (carregámos várias malas), e dar algum apoio. No entanto, ela teve que organizar tudo por si: criar uma conta bancária, descobrir onde estavam as lojas que necessitava para o dia-a-dia e por aí adiante. Naquela fase ainda não tinha carro, pelo que tinha que se deslocar a pé até ao local de trabalho em pleno Inverno, no meio do frio e da chuva. Recordo-me que no primeiro ano ela ter referido ter frieiras nos pés e ser a única estrangeira na empresa. Teve igualmente que se adaptar à língua. Apesar de saber falar inglês, a forma como se fala na Escócia é muito diferente do inglês que estamos habituados.  Enfrentou constantamente o fato de estar sozinha num país estrangeiro e de não ter aquele apoio que existe quando vivemos perto da família e amigos. Em suma, foram inúmeros os desafios que teve que ir superando. Mas ao fim de um ano já tinha saído do aparthotel e já estava a viver num apartamento alugado, decorado com mobília comprada em segunda mão. Foi uma grande conquista!

Outras Batalhas

Contudo, a primeira empresa onde trabalhava fechou três anos após ter chegado à aldeia perto da Escócia. Foi mais uma batalha a vencer....mas após duas entrevistas conseguiu outro posto numa outra multinacional. Estas transições profissionais implicaram reorganizações porque teve que ir mudando de cidade e consequentemente de casa. Fez as mudanças também sozinha. Se foi fácil? Não foi... mas atualmente está a trabalhar num cargo que a satisfaz e onde se revê. O ambiente é multicultural, lá também trabalham brasileiros, espanhóis e alemães, entre outros. Neste momento já não se sente a “estrangeira” porque há inúmeros colegas emigrantes.

A fonte de inspiração

O relato desta história tem como objetivo mostrar que quando nos vemos num percurso onde não se há uma saída aparente, podem tentar-se outras soluções. A ideia de ir até Inglaterra para comprar um  telemóvel e respetivo cartão, bem como conseguir uma morada inglesa, foi muito engenhosa. Confesso que na altura não me apercebi o quão inteligente foi, mas depois de ter refletido concluí que vale a pena ser relatada. Quero igualmente ressaltar que a vivência num país estrangeiro nem sempre foi uma situação fácil, exigiu muita energia e resiliência sob vários níveis. Ainda hoje exige. A forma como conseguiu vencer o desemprego numa idade considerada “ultrapassada” no nosso país, apesar dos seu excelente historial académico, é inspiradora para outras mulheres que possam estar a passar por situações menos positivas.  


 

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